“
Nós somos a união que nos mantém na linha da sobriedade de sentimentos. Nós não dependemos de nenhum ser humano. Nós estamos fazendo força.”
Consta nesses dicionários ambulantes que somos o significado de cada pequena subjetividade. Cabe aos outros virem procurar em nós o motivo de suas dores. Queríamos que tudo fosse mais simples. Queríamos que tudo fizesse um sentido tão amplo em tão poucos parágrafos. Nós não somos de ferro. Nem eu de agora, nem eu de amanhã. Nem meu corpo, nem minha alma. Basta uma gota daquele café que só você sabe fazer para manchar todos os nossos conceitos. Nós somos completamente permeáveis. E parece-nos que foi no dia que a gente escolheu trair a nossa confiança que você deixou a gota mais quente. Ela despedaçou as nossas páginas. Sentimo-nos meio mortos. Como se nós tivéssemos nos separado. Minha alma nos céus enquanto eu aqui durmo e sonho numa concreticidade que chega a ser insolente. Saí de mim, ó palpável e me deixa sentir o ar nos pés, deixa-nos a sós com essa sensação. (…)
Nós procuramos agir com raça. Mas a biologia não nos permite dizê-lo. Então eu, minha alma e minha mente agimos com razão. Nosso coração fica devidamente preso e não o permitimos fazer besteira. Eu, minha alma, minha mente e até mesmo meu instinto temos domado nossas vontades e é meio curioso como ainda não nos prendemos em uma outra gaiola ainda mais restrita. A gente tem feito uma força inenarrável. Superaremos a vetustez com a cara mais bela, com a pele mais lisa. A gente tem se conservado. E é desde sempre, não temos cicatrizes a esconder. Eu, minha alma, minha mente, meu instinto e toda a minha vontade. A gente ta fazendo força, amor. Nós estamos fazendo força, nós todos e meu vocabulário. A gente tem se restringido bastante. Temos evitados chamar pelo seu nome. Cortamos o café.
Meus ouvidos fugiram do nosso controle. Nós ouvimos tudo, tudo o que se emite dos corações desengaiolados alheios. A gente tem suportado. E as músicas que alguns dedos compõem e algumas vozes cantam, essas músicas a gente já não pode cantar porque alguns de nós nos traiu (ou não) e os colou com uma das colas mais eficientes. A cola que se compra com a ganância. Também saiu do nosso controle. Do meu controle, do controle da minha mente, da minha alma, do meu instinto, da minha vontade e do meu vocabulário. Estamos todos sem a fiscalização necessária. E a gente comprou livros, meu bem. (Vocabulário.) Eu, minha mente, minha alma, meu instinto e minha vontade, e só. A gente comprou livros, compramos tinta, papel, compramos um dicionário maior que qualquer outro ser humano. A gente comprou aquela ilusão que chamam de união familiar. E uma máscara pra cada um, de cores diferentes pra ninguém entender que estamos presos juntos. Porque um dia veio essa vontade, a gente foi lá e fez. (Vontade.) (Instinto.)
Coração, nós temos tido abstinência de café. E a nossa pele conservada pede por uma queimadura. Mas a gente não pode. Estamos fazendo força. Eu, minha mente e minha alma. Ainda temos a racionalidade e não é por causa da pusilanimidade do nosso vocabulário que o chamaremos de ‘coração’. Nosso coração está preso e não importa a arquitetura que exerça, minha mente projetou aquela gaiola e ela é impermeável. Dormimos. Eu e meu coração nascemos nus nessa manhã. (Alma.) Soube que tem um espirito vagando a procura de café. Não cremos que ele o encontre, nem eu nem minha mente. Afinal o café passado foge o invisível e meu corpo está conosco. Ele não nos trairá. Nós somos a razão. Nós.
(Mente.)
“Anjo, não permita que eu perca a compostura. Desculpe-me cada palavra irracional, me perdoa cada beijo roubado. Eu não soube administrar tanto calor. Seu café estava muito quente. Sabe quando a gente acaba lacrimejando de tanta dor que a língua sente? Lembra quando a gente fazia concurso de quem terminava aquele caldo mais rápido? Amor, a gente era louco. Nós dois, eu e você. A gente não precisava de mais nada se não aquelas receitas antigas. A gente era feliz, e de alguma forma eu formulo perguntas a procura de algo que ainda tenha ficado que eu possa chegar perto e compartilhar. Não pedi pra receber nenhuma resposta sobre ela. Ela não é nós. Mas é tudo o que você me responde agora. E as perguntas são complexas de mais. Razão do inferno. Esfria meu café, perde meu tempo. Volta pra mim, coração. Volta pra mim, pequeno. Volta, meu vocativo preferido. Esquece quem habitava esse corpo, não tem mais ninguém aqui. Estou sozinha. Me habita. Vive em mim, reformula meus conceitos, e os suja de café. Vamos ficar a noite toda bebendo café, meu amor. Vamos ficar embriagados de amor. Por favor. Só eu e você. Nós. À procura do meu coração perdido.” Luísa Mendonça — △ Peccati: Plural (via pseudoarcaica)
19 hours ago with 7 notes
Consta nesses dicionários ambulantes que somos o significado de cada pequena subjetividade. Cabe aos outros virem procurar em nós o motivo de suas dores. Queríamos que tudo fosse mais simples. Queríamos que tudo fizesse um sentido tão amplo em tão poucos parágrafos. Nós não somos de ferro. Nem eu de agora, nem eu de amanhã. Nem meu corpo, nem minha alma. Basta uma gota daquele café que só você sabe fazer para manchar todos os nossos conceitos. Nós somos completamente permeáveis. E parece-nos que foi no dia que a gente escolheu trair a nossa confiança que você deixou a gota mais quente. Ela despedaçou as nossas páginas. Sentimo-nos meio mortos. Como se nós tivéssemos nos separado. Minha alma nos céus enquanto eu aqui durmo e sonho numa concreticidade que chega a ser insolente. Saí de mim, ó palpável e me deixa sentir o ar nos pés, deixa-nos a sós com essa sensação. (…)
Nós procuramos agir com raça. Mas a biologia não nos permite dizê-lo. Então eu, minha alma e minha mente agimos com razão. Nosso coração fica devidamente preso e não o permitimos fazer besteira. Eu, minha alma, minha mente e até mesmo meu instinto temos domado nossas vontades e é meio curioso como ainda não nos prendemos em uma outra gaiola ainda mais restrita. A gente tem feito uma força inenarrável. Superaremos a vetustez com a cara mais bela, com a pele mais lisa. A gente tem se conservado. E é desde sempre, não temos cicatrizes a esconder. Eu, minha alma, minha mente, meu instinto e toda a minha vontade. A gente ta fazendo força, amor. Nós estamos fazendo força, nós todos e meu vocabulário. A gente tem se restringido bastante. Temos evitados chamar pelo seu nome. Cortamos o café.
Meus ouvidos fugiram do nosso controle. Nós ouvimos tudo, tudo o que se emite dos corações desengaiolados alheios. A gente tem suportado. E as músicas que alguns dedos compõem e algumas vozes cantam, essas músicas a gente já não pode cantar porque alguns de nós nos traiu (ou não) e os colou com uma das colas mais eficientes. A cola que se compra com a ganância. Também saiu do nosso controle. Do meu controle, do controle da minha mente, da minha alma, do meu instinto, da minha vontade e do meu vocabulário. Estamos todos sem a fiscalização necessária. E a gente comprou livros, meu bem. (Vocabulário.) Eu, minha mente, minha alma, meu instinto e minha vontade, e só. A gente comprou livros, compramos tinta, papel, compramos um dicionário maior que qualquer outro ser humano. A gente comprou aquela ilusão que chamam de união familiar. E uma máscara pra cada um, de cores diferentes pra ninguém entender que estamos presos juntos. Porque um dia veio essa vontade, a gente foi lá e fez. (Vontade.) (Instinto.)
Coração, nós temos tido abstinência de café. E a nossa pele conservada pede por uma queimadura. Mas a gente não pode. Estamos fazendo força. Eu, minha mente e minha alma. Ainda temos a racionalidade e não é por causa da pusilanimidade do nosso vocabulário que o chamaremos de ‘coração’. Nosso coração está preso e não importa a arquitetura que exerça, minha mente projetou aquela gaiola e ela é impermeável. Dormimos. Eu e meu coração nascemos nus nessa manhã. (Alma.) Soube que tem um espirito vagando a procura de café. Não cremos que ele o encontre, nem eu nem minha mente. Afinal o café passado foge o invisível e meu corpo está conosco. Ele não nos trairá. Nós somos a razão. Nós.
(Mente.)
“Anjo, não permita que eu perca a compostura. Desculpe-me cada palavra irracional, me perdoa cada beijo roubado. Eu não soube administrar tanto calor. Seu café estava muito quente. Sabe quando a gente acaba lacrimejando de tanta dor que a língua sente? Lembra quando a gente fazia concurso de quem terminava aquele caldo mais rápido? Amor, a gente era louco. Nós dois, eu e você. A gente não precisava de mais nada se não aquelas receitas antigas. A gente era feliz, e de alguma forma eu formulo perguntas a procura de algo que ainda tenha ficado que eu possa chegar perto e compartilhar. Não pedi pra receber nenhuma resposta sobre ela. Ela não é nós. Mas é tudo o que você me responde agora. E as perguntas são complexas de mais. Razão do inferno. Esfria meu café, perde meu tempo. Volta pra mim, coração. Volta pra mim, pequeno. Volta, meu vocativo preferido. Esquece quem habitava esse corpo, não tem mais ninguém aqui. Estou sozinha. Me habita. Vive em mim, reformula meus conceitos, e os suja de café. Vamos ficar a noite toda bebendo café, meu amor. Vamos ficar embriagados de amor. Por favor. Só eu e você. Nós. À procura do meu coração perdido.” Luísa Mendonça — △ Peccati: Plural (via pseudoarcaica)
